Aviso: este texto tem spoilers do
filme.
Quatro irmãos afastados voltam a uma remota aldeia na Anatólia para o casamento da irmã, Ceren. Conforme a celebração avança, segredos que foram guardados por gerações e outras lembranças apagadas começam a ressurgir, revelando uma maldição que paira sobre a casa ilegal onde vivem. O drama aborda o luto, o destino e a desintegração familiar.
Desde que ouvi falar do novo filme de Ferit Karahan li de tudo sobre o estilo dele, afinal, uma de minhas atrizes turcas favoritas estaria nele. Demet Özdemir se "criou" na comédia romântica e enveredou no drama em seguida. Ela tem aquele dom de quem sabe oscilar sentimentos com facilidade, então quando soube que estaria com Ferit já imaginava que viria algo desse tipo.
Então eu terminei de assistir a Djinn Wedding, o tal filme turco dirigido pelo Ferit Karahan, no Festival do Rio. Assim que as luzes se acenderam eu soltei um: UAU. E fiquei com vontade de escrever sobre ele porque é daqueles filmes que continuam acontecendo na nossa cabeça depois que terminam.
Ele parece contar a história de uma família, mas, conforme as cenas avançam, vai ficando evidente que fala de coisas maiores: das mulheres, da tradição, da violência e daquilo que uma geração deixa para a próxima. E tem uma pergunta que, pra mim, atravessa o filme inteiro: aquilo que parece uma maldição é mesmo uma maldição? Ou é uma estrutura que vai se repetindo de pai para filho, de mãe para filha?
A história acompanha essa família em diferentes períodos e o filme usa imagens que vão voltando em ciclos: meteoro, cavalo, terra, água, dinossauro, correntes, trem e a casa onde todos vivem. A cada vez que reaparecem, elas ganham outro peso. O que escrevo aqui é a minha leitura. Não existe uma tradução oficial pra cada símbolo e acho que o filme fica mais bonito justamente por isso.
O filme é divido em três partes (bölum). Anjos, Djinns e Correntes. Karahan explica que “Anjos” representa aquele último momento da infância em que a criança ainda confia no mundo e nos adultos. Depois da morte da mãe, os irmãos perdem justamente esse mundo infantil. Djinns são os fantasmas que surgem quando essa inocência acaba e Correntes são aquilo que se herda e continua carregando, mesmo quando não fomos nós que criamos.
A primeira parte é triste, intensa, inóspita. Quando chega a segunda com Demet e Ilhan, você sente o baque porque eles engolem a cena. Aquela intensidade deles que, quando atuam juntos, nos faz querer ver eles por horas e horas. Na terceira, Demet continua carregando as cenas, mas Helin Kandemir mantém a qualidade no alto, provando que é um dos grandes nomes da nova geração de atores turcos.
Kaan Yildirim também não fica de lado. A frustração do filho mais novo de ser atribuído a ele cuidar de tudo quando os mais velhos saem em busca da vida que desejam, é percebida nas pequenas ações. Aliás são os detalhes que falam nas cenas, que muitas vezes nem falas têm. Respirações, olhares, passos...tudo fala mais que palavras. Até porque, quando palavras poderiam ser ditas, elas se calam (e na mão de Ceren faz-se o punhado de terra que ela logo coloca na boca).
O meteoro e a queda
O dinossauro que ninguém consegue enterrar
Esse foi o símbolo que eu mais demorei a entender. Desde a infância existe a história de que ali é terra de dinossauros. A criança diz que viu um dinossauro amarrado em uma árvore e, depois, fala de um dinossauro dentro do rio. Aos poucos percebemos que essas imagens antecipam o que ainda acontecerá. O dinossauro no rio se liga à morte de Deniz, que acontece justamente naquele local. O dinossauro amarrado na árvore seria uma criatura enorme, poderosa e presa, e isso conversa com o pai, que termina acorrentado.
Não dá pra dizer simplesmente que "o dinossauro é o pai". O próprio diretor já comentou que não quer que esses elementos sejam decifrados como um código, mas existe uma linha de repetição: a criança vê uma imagem que parece fantasia e depois nós, adultos, percebemos que aquela fantasia falava de algo real. Talvez o filme faça o mesmo com os djinns. Aquilo que uma pessoa não consegue compreender vira uma história sobrenatural. Karahan disse em entrevistas justamente isso. Que a fantasia no filme vem de situações da infância dele, em que colocavam fantasia para explicar um momento triste ou difícil.
A casa que guarda tudo
A casa é apresentada como um lugar com uma história anterior àquela família. Existe uma ideia de maldição ligada ao terreno, ao que aconteceu ali antes e a família passa a viver nesse espaço. Eu me questionei se existe um djinn naquela casa ou o que aconteceu naquele lugar antes de eles chegarem. As pessoas morrem, as pessoas vão embora e as crianças crescem (de maneira sofrida). A casa fica.
E no final vem uma das cenas mais bonitas e estranhas do filme. A filha de Ceren vai embora de trem e, enquanto o trem se move, a casa começa a tremer. Treme, treme, treme, como se fosse desabar. Então se ouve um rugido de dinossauro vindo lá de dentro. Entendi que é como se o passado estivesse vivo. As pessoas podem ir embora, mas o que aconteceu ali continua existindo. O dinossauro deveria estar morto há milhões de anos e segue vivo naquela casa, assim como as histórias daquela família.
Ceren, o cavalo e a terra
Ceren é, talvez, a personagem mais triste do filme. Ainda criança, ela ganha um colar com um cavalo. E o cavalo, metaforicamente, pode ser lido como imagem de liberdade, de movimento, da possibilidade de ir embora. O cavalo corre, atravessa a paisagem, vai pra onde quiser. Ceren não.
É a partir daí que a relação dela com a terra começa a aparecer. Ceren come terra e ela não faz isso simplesmente quando está triste. Ela come terra nos momentos em que anseia pela liberdade, mas é podada dela. Ela aparece vestida de noiva e come terra, porque o casamento deveria ser uma vida nova e, para ela, é também uma vida decidida por outras pessoas. Por tradições e costumes que precisam acontecer.
Essa cena, inclusive tem uma fotografia linda (a que está na capa). Djinn Wedding merecia por si só um prêmio por isso.
Outra cena que explica como a terra tem relação com o "espírito animal" dela é quando ela passa mal com enjoos da gravidez no casamento e come terra. Todos descobrem a gravidez e ela come terra de novo. Anos depois, quando a filha já cresceu e ela vai atrás da menina, é proibida e come terra outra vez.
Isso mudou completamente a minha leitura da cena. A terra parece ser o corpo tentando dizer o que Ceren não consegue dizer em palavras. "Eu não quero essa vida." "Eu quero minha filha." "Eu quero ir embora." Mas ela não consegue. Continua presa à família, às regras, ao irmão e às decisões dos outros.
E tem uma dor ainda maior. Ceren é mãe, mas não consegue exercer a maternidade. Não acompanha o crescimento da filha, não vê a infância, não participa das pequenas coisas. Quando finalmente reencontra a menina, já é tarde pra recuperar aqueles anos. Ela perdeu a filha e perdeu também uma parte inteira da própria vida: a chance de descobrir quem aquela menina se tornaria e quem ela mesma seria como mãe. Nesses momentos, a terra parece ser também a tentativa de colocar pra dentro do corpo algo que é impossível preencher.
O cavalo diz "eu quero ir". A terra diz "você está presa aqui". E Ceren passa a vida inteira entre as duas coisas.
Ela, inclusive, começa a comer terra junto com o cavalo branco (se não me engano, no funeral da mãe).
O trem como retrato da sociedade
Uma das sequências mais interessantes é a do trem. Deniz (Ilhan) encontra uma menina perdida em um dos vagões e sai procurando a família dela. Enquanto procura, atravessa vários vagões, e eu tive a sensação de que cada um é um pequeno retrato de uma estrutura social turca.
Em um deles, uma mulher serve o marido, que está encostado,
dormindo. Em outro, há uma família cheia de filhos, uma mulher aparentemente
submissa e um homem que causa desconforto pelo jeito como se aproxima da
menina. Em outro, vários homens jogando questionam por que Deniz se importa
tanto com uma menina que nem conhece.
Esse detalhe pesa muito. Deniz está fazendo uma coisa simples, que
é proteger uma criança. Mas naquele ambiente a preocupação dele soa estranha.
Ele poderia ignorar, poderia deixar a menina com qualquer adulto. Ele insiste.
No fim, quando o irmão da menina aparece, já adulto, dá um soco em
Deniz. Ele apanha sem entender por quê e volta pelo trem com a boca
sangrando. Ele atravessou aqueles vagões observando a sociedade e sai
carregando no rosto a violência que encontrou.
Tem mais uma coisa nessa sequência: enquanto a menina está
perdida, os adultos falam por ela. Um homem diz que é parente. Outros decidem o
que fazer. Deniz tenta descobrir a verdade. E a menina fica em silêncio até o
irmão aparecer. Só então ela fala e vai até ele.
O filme está falando de quem tem direito de falar, de quem é
ouvido e de quem tem a vida decidida pelos outros. E isso se conecta direto com
Ceren, que passa boa parte da vida sem conseguir decidir o próprio destino.
Por isso eu vejo no filme uma crítica que vai além de uma
família específica. O que acontece naquela casa não acontece isolado. O trem é
quase uma sociedade em movimento: você entra em um vagão e encontra um
comportamento, entra no outro e encontra outro. Silêncio, submissão, homens que
não se envolvem, mulheres que carregam a casa, crianças que crescem dentro
disso tudo.
O casamento como outra forma de aprisionamento
O final e as correntes
Falando nela, no final, a filha de Ceren entra, ou pelo menos a gente entende que entra, naquele trem. É muito simbólico. Antes vimos Deniz atravessar o trem tentando tirar uma menina de uma situação vulnerável. Agora é a filha de Ceren que está entrando naquele mundo. O filme não diz o que vai acontecer. Ela está indo embora? Está encontrando liberdade? Ou só está entrando em outra parte da mesma sociedade?
Essa ambiguidade importa, porque talvez a pergunta do filme seja justamente se uma geração consegue romper o que recebeu da anterior. É aí que entram as correntes. Elas não precisam ser físicas. Podem ser uma crença, uma tradição, um silêncio, uma culpa, uma forma de tratar as mulheres, uma história que ninguém quer enfrentar. Quando isso passa de pai pra filho, de mãe pra filha, começa a parecer destino. Começa a parecer maldição.
Talvez esse seja o sentido dos djinns no filme. Em vez de apontar uma criatura sobrenatural como responsável por tudo, ele pergunta o que acontece quando uma família não consegue explicar a própria dor e transforma essa dor numa história de maldição. Porque, se é maldição, ninguém precisa perguntar quem criou aquela situação. Se é estrutura, alguém precisa assumir a responsabilidade.
No fim, tudo se conecta. O meteoro anuncia a queda. O rio leva
Deniz. As correntes mostram o que aprisiona. O cavalo é a possibilidade de
liberdade. A terra é o que Ceren não consegue dizer. O trem é a sociedade e a
passagem de uma geração pra outra. A casa guarda a memória. E o dinossauro é
aquilo que deveria estar morto e continua vivo.
Pra mim, o verdadeiro djinn do filme é o passado. Aquilo que uma geração não resolveu e entregou pra próxima. Ceren passou a vida desejando liberdade e nunca conseguiu. A filha recebe a chance de ir embora, mas a gente não sabe se ela vai realmente se libertar, porque sair da casa nem sempre significa sair das correntes.
Djinn Wedding termina sem dizer que a família está amaldiçoada.
Deixa uma pergunta bem mais difícil: o que nós herdamos de quem veio antes de
nós e quanto disso conseguimos, de fato, escolher não repetir?







