Durante nove anos, a APLV decidiu o cardápio das festas aqui em casa. Conto o que ficou dessa fase e o que ajuda quem recebe uma criança alérgica.
Outubro está acabando e a agenda das crianças já começa a encher: festa da escola, aniversário de colega, confraternização de fim de ano, lanche coletivo da turma. Para muita família isso é só correria. Durante nove anos, aqui em casa, era também uma logística à parte, porque a APLV, a alergia à proteína do leite de vaca, fez parte da minha rotina de mãe, com os meus dois filhos.
Quem me acompanha há mais tempo lembra do começo. Em 2016, com o Ivan fazendo 9 meses e ainda mamando no peito, eu tinha cortado da minha alimentação tudo o que levava leite e derivados. Emagreci pelo menos sete quilos (e olha que eu já era magra). A cozinha aqui de casa se adaptou e boa parte das receitas que eu publicava era sem leite, porque era isso que a gente comia.
E festa, para família de alérgico, nunca é só festa. É a tensão antes do aniversário, o medo de uma contaminação mínima. Carregar marmitinha virou rotina. Em viagem também: em 2017 eu contei aqui que o Ivan tinha feito três viagens de avião em menos de um ano e que eu embarcava com as refeições prontas em potinhos bem vedados, porque nem o lanche de bordo eu podia oferecer sem saber se tinha traço de leite.
Ler rótulo virou hábito. E para quem vive isso, duas frases da embalagem viram as mais importantes do supermercado. Pelas regras de rotulagem de alergênicos da Anvisa, o produto que tem leite na composição precisa avisar em destaque, com algo como "ALÉRGICOS: CONTÉM LEITE" ou "CONTÉM DERIVADOS DE LEITE". Já o "ALÉRGICOS: PODE CONTER LEITE" aparece quando o fabricante não consegue garantir que o alimento não teve contato com leite durante a produção. Para quem tem alergia, as duas frases importam.
E tem uma confusão muito comum: "zero lactose" não quer dizer sem leite. A lactose é o açúcar do leite. Na APLV, o problema é a proteína, que continua lá no produto sem lactose. Por isso a Anvisa trata as duas coisas em advertências separadas.
O lanche coletivo da escola era outro capítulo. Eu fiz aqui uma lista com 40 ideias de lanche coletivo, pensando também nos colegas com restrição, porque quase tudo dá para adaptar sem leite ou sem glúten. A lista continua aqui no Blog, se você precisar de ideia.
Aí chegou 2025. Com acompanhamento médico, os dois fizeram a reintrodução do leite em etapas, dentro do consultório. No fim do processo, veio a notícia: eles estão curados. Eu chorei. Chorei na festa de aniversário com bolo com leite. Chorei no lanche coletivo da escola, agora com tudo liberado para eles. A primeira festa sem marmitinha foi emocionante. Eu escrevi naquela época que a mochila invisível que eu carregava finalmente tinha ficado mais leve.
Por isso, nesta época de festa, este texto é para as mães que ainda estão do outro lado, com a marmitinha pronta na geladeira para levar no sábado. Se você é uma delas: eu sei o quanto você planeja, revisa e confere. Lá no começo, foram as conversas com outras mães que me acalmaram. E eu repito o que escrevi quando os meus filhos se curaram: a maioria das crianças supera a alergia. O seu cuidado faz diferença e cada caso tem o seu tempo. Quem diz quando é a hora de testar é o médico que acompanha a criança.
E se é você quem vai receber uma criança alérgica na festa, algumas atitudes simples facilitam a vida da família: perguntar antes para a mãe ou o pai o que pode e o que não pode, guardar a embalagem dos doces e salgados para que eles leiam o rótulo, não insistir com o "só um pedacinho não faz mal" e não estranhar a marmitinha. Para a criança, estar na mesa com os amigos já é a festa.
E por aí? Tem criança com alergia alimentar na família ou na turma do seu filho? Me conta nos comentários como vocês resolvem as festas, porque troca de mãe para mãe sempre ajuda alguém que está começando agora.


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