Foto: Stephen Andrews / Unsplash
O presente vai chegar e é bom que chegue. O que dá para mudar é quem cuida dos brinquedos depois: a triagem antes do Natal, o rodízio e as tarefas que cabem em cada idade.
São nove e meia da noite, a cozinha acabou de ser fechada e ainda tem um bloco de montar debaixo do sofá, uma boneca no corredor e peças de quebra-cabeça no tapete da sala. Você recolhe tudo, porque é mais rápido do que pedir, e no dia seguinte a cena se repete. Com o Natal na sexta-feira, a tendência é a casa receber mais uma leva de brinquedos e a arrumação de sempre ganhar mais itens.
Não há nada de errado em querer presentear. O ponto é outro: na maioria das casas, quem organiza os brinquedos é a mãe e essa é uma tarefa diária, pequena e invisível, que se soma a todas as outras. Dá para usar a data como ponto de partida para um combinado novo, em que a criança participa de verdade.
Por que menos brinquedos à vista ajuda
Um estudo da Universidade de Toledo, nos Estados Unidos, publicado em 2018 na revista Infant Behavior and Development, observou 36 crianças de 18 a 30 meses brincando em duas situações: uma sala com 4 brinquedos e outra com 16. Com menos opções, as crianças brincaram por mais tempo com cada brinquedo, cerca do dobro, e inventaram mais formas de usar o mesmo objeto. Com 16, muitas passavam por dez ou mais brinquedos em 15 minutos, sem se aprofundar em nenhum.
As pesquisadoras fizeram uma recomendação prática: se a criança ganha muitos brinquedos, não é preciso oferecer todos ao mesmo tempo. Guardar uma parte e fazer rodízio rende brincadeiras mais ricas. O estudo foi feito com crianças pequenas, mas a lógica serve para a rotina da casa em qualquer idade: quanto menos coisa à vista, mais fácil fica para a criança saber onde cada uma mora e devolver ao lugar.
Antes do Natal: a triagem feita junto
A melhor hora de abrir espaço é antes de o presente chegar. Escolha um momento sem pressa, no fim de semana, por exemplo, e faça a triagem com a criança, em três grupos:
O que quebrou ou está faltando peça. Se tem conserto, separe para consertar; se não tem, sai.
O que ficou pequeno para a idade ou está repetido. Se estiver em bom estado, pode ir para doação, para um primo mais novo ou para a escola, se ela aceitar.
O que fica. Desse grupo, uma parte vai para uma caixa de rodízio, guardada fora do alcance, e volta daqui a algumas semanas no lugar de outros.
A participação da criança é o que faz a triagem funcionar. Quando ela escolhe o que sai, aceita melhor a decisão e entende que espaço é algo que acaba. Com os menores, ofereça escolhas limitadas ("destes dois, qual vai para o primo?"); com os maiores, dá para combinar uma regra que vale dali em diante, como a de que cada brinquedo grande que entra abre espaço para outro sair.
Quem guarda o quê: o que cabe em cada idade
Aqui está a parte que mais alivia a rotina. A Academia Americana de Psiquiatria da Infância e da Adolescência (AACAP) lista tarefas domésticas adequadas para cada faixa etária e guardar brinquedos aparece já entre as de 2 a 3 anos. Segundo a entidade, crianças que participam das tarefas de casa tendem a ter mais autoestima e responsabilidade.
Na prática, com base nessa lista, a divisão pode ficar assim:
De 2 a 3 anos, a criança guarda os brinquedos com você ao lado. Ela ainda precisa de companhia e de lugares muito simples: um cesto para bichos, outro para carrinhos, sem tampa difícil de abrir.
De 4 a 5 anos, já consegue guardar sozinha os brinquedos dela ao fim do dia, desde que cada coisa tenha um lugar fixo e fácil de alcançar. Na lista da AACAP, é também a idade de ajudar a arrumar a cama e tirar a mesa.
Aos 6 e 7 anos, a criança pode ficar responsável pela arrumação do próprio quarto em um horário combinado e guardar as próprias roupas, o que também está na lista da entidade para essa faixa.
O que mais ajuda é a tarefa ser dela por inteiro. Quando a criança só "ajuda a mãe" e a arrumação vira um pedido que muda todo dia, ela espera ser chamada e você continua sendo a responsável. Quando vira parte da rotina, em um momento fixo, como antes do banho ou antes de dormir, a cobrança diminui com o tempo.
Facilita a vida da criança (e a sua)
Algumas mudanças pequenas ajudam a criança a arrumar sem depender de você:
Lugares baixos e abertos. Prateleira na altura dela e cestos sem tampa funcionam melhor do que caixas empilhadas.
Etiquetas com desenho ou foto para quem ainda não lê. A criança vê onde vai o carrinho e não precisa perguntar.
Um lugar por categoria e não por cômodo. Se os blocos sempre voltam para o mesmo cesto, a arrumação fica automática.
Brinquedos que não cabem em lugar nenhum entram na caixa do rodízio. Se não tem onde guardar, não tem como a criança manter.
E a família que vai presentear?
Se fizer sentido para vocês, vale conversar antes com avós, tios e padrinhos. Ninguém precisa adivinhar: dá para sugerir algo que a criança já pediu, um livro, uma atividade ou um passeio para fazerem juntos. A conversa serve para ajudar a acertar o presente, sem controlar o que cada um dá.
Para quem tem em casa uma criança saindo da infância, a partir dos 10 anos, deixo aqui uma sugestão minha (sim, sou a autora): Tudo O Que Eu Sempre Quis, o primeiro livro da série, conta as primeiras descobertas da adolescência, entre paixões, amizades, inseguranças e conflitos familiares. É o tipo de presente que também abre conversa sobre essa fase que está começando.
O que muda depois?
O Dia das Crianças passa, o Natal passa...os brinquedos novos ficam e a arrumação continua existindo. O que pode mudar é que ela deixe de ser uma tarefa só sua. Começar pela triagem, com a criança junto, e terminar com um combinado simples de quem guarda o quê é um jeito de receber os presentes sem transformar a sala em depósito e sem fechar o dia recolhendo peça de brinquedo do chão. A casa não vai ficar perfeita e nem precisa. Basta que o trabalho de mantê-la seja dividido.


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